Uma Visão do Cenário
Os motivos desse Karma, sinceramente não sei quais são, mas as conseqüências são bem claras para mim. É claro que tudo isso é uma piada (sem querer ofender a ninguém), mas isso explicaria muitas coisas: as desgraças familiares que tive em vida, a minha própria morte, ser jogado no mundo sem qualquer instrução e ter que arcar com as conseqüências de uma guerra travada há milênios, fazer parte de um grupo que combate “as forças do mal” na Terra (Mein Gotten! Isso parece o jargão de guerra dos “Change Men” o.O) “E” trabalhar num grupo com seres tão – como direi... – cheios de si quanto este. E o pior de tudo: sou obrigado a me incluir entre eles.
Se fosse somente pela impulsividade, disso não posso reclamar, afinal de contas todos nós temos esse “defeito”, tendo-se em vista que em muitas situações essa característica foi benéfica, e até mesmo fundamental. Mas não se trata somente disso: trata-se de orgulho, de arrogância e de destempero. Nossa posição exige uma análise profunda de toda e qualquer ação que venhamos a tomar, para evitar perdas irreparáveis. Vide Lucas Stradt e Katheleen Doreen. Nós nunca os esqueceremos. Ad Aeternum.
Tudo começou na investigação dos crimes da Assassina de Mármore. Um passo extremamente arriscado: seguir a sombra reveladora de uma Assassina até o seu covil, passando por becos e esgotos, sem se importar com o que podemos encontrar pelo caminho foi impensado, mas revelador. Até aí, não posso criticar: nada aconteceu e o saldo final foi acima das expectativas. Mas o que realmente fez-me colocar a mão na consciência e ver que não passamos de crianças brincando com as sombras foi o que houve logo após tudo isso.
Após nos retirarmos da mansão abandonada, combinou-se que nos encontraríamos na sede para compartilhar tudo o que foi descoberto até então. Eu e Bella estávamos exultantes com as novas descobertas: uma mansão-torre de três andares em forma octogonal, com um grande saguão principal que recebia, através de refratação da luz natural por meio de espelhos: uma espécie de energização do selo que compunha esse salão. Cada andar tinha 8 cômodos, com exceção do terceiro, que tinha um corredor de acesso para um quarto pseudo-secreto: um laboratório com uma prateleira repleta de potes. Vários desses potes estavam vazios, mas a maioria deles tinham em si órgãos humanos embebidos em Formol - GOTCHA! -. Todos os órgãos roubados nos últimos crimes foram encontrados, mas dentre eles havia um a mais: um útero. Este tinha a aparência de ser um pouco mais velho que os roubados durante os últimos crimes, mas ainda estava intacto. Estranho. Bella remove-os todos para o plano sombrio, para que posteriormente pudéssemos estudá-los.
No fundo da sala, havia uma silhueta feminina de frente a um espelho. Após certa hesitação por minha parte e de Bella, esta o toca e descobre que se tratava de um manequim de estudos de anatomia e, dentro deste havia órgãos humanos, alojados metodicamente semelhante a anatomia humana feminina. Ao ser tocado por Bella, o manequim se desmancha em órgãos decompostos e vermes. Saímos de lá o mais rápido possível.
No saguão do terceiro andar encontramos espelhos em um carrinho de serviço e sete espelhos posicionados em cada um dos lados do andar. O oitavo estava quebrado. Os espelhos refratavam a luz natural que provinha da clarabóia para um cristal, que amplificava e direcionava a luz para o Hall de Entrada, no térreo, onde havia circunscrito orações em aramaico de proteção e selamento. Estranho. De novo.
Ao analisarmos com calma cada um dos espelho, encontrei uma etiqueta de conserto que indicava o restaurador e seu endereço e em um dos espelhos, atrás de um papelão de proteção, encontramos um papel transcrito em Aramaico, com uma canção em inglês, que dizia:
Blind Guardian - Black Chamber
I am lost in the black chamber
There's no way to turn back
It takes me down forevermore
And death would be so sweet
I'm possessed by the old creature
Who has planned all
To take my soul
Too late for me
In my hands
It lies
I thought
But I failed
Now he's in me
My soul is lost
In his black chamber
I'm gone
Nos outros andares, nada de relevante foi encontrado, a não ser algumas marcas de sangue nas paredes e restos de intestinos cremados no fogão a lenha. As marcas mostravam que quem manipulou o sangue que estava nas paredes tinha ojeriza disso, e tentava se limpar compulsivamente. Uma vez mais: Estranho.
Bom, depois de todas essa informações caírem em nossas mãos tão facilmente, entramos em contato com Claudia e José, avisando que estávamos bem e sobre as descobertas que fizemos. Foi combinado que deveríamos nos encontrar na Sede, em SBC.
Chegamos primeiro, e logo depois chega Rafael. Bella, em toda a sua compulsividade, devora torrões de açúcar, Rafael fuma e eu afio a lâmina da espada. Logo depois chega o casal que estava faltando, e pasmem: José estava MAIS SÃO, ou seja, de MENOS PILEQUE do que Claudia, que age de forma nada “convencional” comigo.
(Antes de prosseguir, faço aqui um à parte para explicar algo que à mim faz uma diferença soberba: se você quer contar algo complexo a ouvintes interessados, inicie a narrativa com um pequeno resumo, sem fechamento, e descreva minuciosamente o cenário ANTES de contar os fatos que compões a estrutura da narrativa. Isso é uma ferramenta importante para que não se interrompa nem seja interrompido para descrever o cenário. E tenho dito.)
Sentados todos (Claudia no meu colo), Bella toma a frente e começa a contar o que houve. Como estava a par da situação, falo para que descreva o local, antes de continuar. Ela me ignora e continua. José interrompe para fazer perguntas REFERENTES ao casarão. Claudia continua agindo de forma... inapropriada, o que me obriga a benzê-la e restabelecer sua sobriedade. Deixo sobre a mesa uma transcrição do papel que encontramos atrás do espelho, na versão original (Aramaico - Inglês) e em Inglês. Interrompo Bella com um pote cheio de torrões de açúcar, para tentar explicar o cenário. Ânimos exaltados: Bella começa a me interromper, e irritada com a interrupção sofrida, começa a me ofender. Nada contra, é o modo dela se defender, se você não contar as Montantes, e posteriormente, a “Geladeira Voadora”.
José, farto daquela situação, resolve tomar a frente e tentar descobrir informações sobre o objetivo final dos órgãos roubados. Inicia um ritual mediúnico, que quase acaba em tragédia. Ao assoprar pinga em cima dos potes, José não percebe que um dos potes, justamente o do útero, estava semi-aberto e toca fogo. O pote explode e o acerta, que começa a queimar de forma absurda, graças ao Formol em combustão. Pessoas assustadas, eu atônito. Depois de alguns instantes, Rafael e eu apagamos o fogo em José e sobre a mesa, mas o mal já havia sido feto: José havia se queimado gravemente e o útero, um item importantíssimo para estudos que possivelmente nos traria mais informações sobre os crimes, estava carbonizado. Lembram-se do começo dessa história? Impulsividade... Seria muito cômico, se não fosse tão trágico.
Você me pergunta: Acabou? Longe disso. Sabemos que a insistência é uma característica da natureza humana. Impulsividade inconseqüente e insistência: combinação assustadoramente perigosa.
Então José, ainda não feliz pelo que tinha acontecido, resolve prosseguir os ritos. Bella, entendo que este tinha boas intenções, começa a ajuda-lo e intensifica o ritual (sua especialidade, diga-se de passagem). José, colocando os órgãos em cima da mesa, seguindo a lógica de como deveriam estar os órgãos dentro de um corpo, intercede pela verdade e Isabella reza em Latim – uma combinação perigosa: depois do Enochiano, o Latim é uma das línguas mais poderosas na execução de rituais e efeitos místicos.
O que José não sabia é que estava executando um ritual necromântico, e sua inexperiência poderia custar nossas vidas, devido a dois fatores:
1) O local onde estava sendo feito: a sede do Selo Negro é um santuário místico com grande força. Não o estudei ainda, mas posso quase afirmar que possui uma grande ligação com algum nodo da Região.
2) Um ritual necromântico de revelação consome muita energia mística pois geralmente trata-se de uma invocação. Se o executor do ritual não sabe com “quem” está tratando, segue um conselho: Não se meta! É perigoso demais mexer com forças que desconhecemos, mesmo na melhor das intenções.
E a situação se complica durante a execução do ritual: a forma-pensamento do ritual, alimentada pela energia mística da casa, começa a assumir uma forma física. Scheisse!!! Para completar a cena pitoresca, Claudia, já restabelecida de seu pilequinho, fecha um círculo de sal entorno de José, Bella e do ritual. Pronto, estão presos... nada sai dali. E também nada entra. Menos mal???
Surge um “salvador”: Jeremias sente o mal que se forma e vem para derruba-lo. Mas “Ooops!” Há um circulo de sal: ele não pode entrar... proteção mística afeta diretamente à nós, seres astrais, o que obriga Claudia a quebrar a barreira, para que enfim, Jeremias destrua aquela manifestação.
Mein Gotten, não quero invoca-lo em vão, mas explique-me: será que nenhum dos dois conseguiu prever o que estavam fazendo? Quais as complicações de atos tão impensados quanto esse?
Eu tento trazer luz às idéias dos dois. Não da maneira mais agradável, mas da forma mais clara possível:
“Isso é um ritual necromântico. Ou vocês não sabiam disso, principalmente você, Bella, a Grande Maga Ritualística?”
Preciso dizer que ela ficou PUTA DE RAIVA? Pois é... e lá vêm as acusações, tais como “Quem é você pra dizer algo, Captare. Você fez algo para ajudar? Nem capacidade pra fazer isso você tem.”, dentre outras.
Eu poderia ter ficado quieto, mas... a boca é mais rápida que o cérebro:
“Por acaso preciso da opinião de uma Caída???”
... bom, pra resumir, sei que a ultima coisa que lembro-me te dito foi: “E você realmente acha que eu ligo para o que você diz?”, e uma geladeira de +/- 300 kg, voou sobre mim. Nem percebi... Scheisse!
“Tá contente? Tenta de novo, Palhaça...” – foi tudo o que eu disse. Sai pela porta logo depois. Rafael ficou, e parece que ele me defendeu. Não fiz nada para merecer seu apreço, mas fiquei grato pela forma como agiu. Ao menos alguém ficou do meu lado.
Saí de lá e tentei arejar a cabeça, pensar com calma. Scheisse, de novo! Como pode uma pessoa tão esclarecida como Isabella não ter percebido a gravidade da situação. Voltamos ao tema principal dessa história: Orgulho, Arrogância, Destempero e Egocentrismo. E não restrinjo isso somente à ela, mas a todos nós.
Entendo o lado do José: em um grupo, deve haver alguém que tome as decisões, assuma os riscos e enfrente as situações. Mas tudo isso deve ser feito de caso pensado, não por ímpeto pessoal. Bem, não sou a pessoa mais indicada a ensinar tais lições, mas tenho consciência de minhas carências. Também não posso deixar de mencionar a falha que essa situação imporia a mim: se acaso Bella se ferisse novamente ou até mesmo morresse, estaria falhando com uma promessa. E isso não me perdoaria nunca. Falhando duas vezes com as mulheres de minha vida: minha irmã e uma amiga – sim, posso chama-la de amiga.
Passado algum tempo, Claudia me liga, e como se estivéssemos ligados, ambos comentam sobre o endereço encontrado no espelho do casarão. Peço a ela que verifique as referências do local (a loja onde as restaurações foram feitas) e sobre marmorarias que tenham feito aquele trabalho no hall da torre. Com uma rápida observação, pude estimar que aquele trabalho datava do início do século XX.
Trabalho feito... agora, esfriar a cabeça e partir para a investigação. Tenho que encontrar dados a respeito dessa loja.
Agora, as dúvidas que surgem: teriam os maçônicos alguma relação com aquele casarão, ou seria apenas uma dissidência dentro deles mesmos. Sabemos que a “Ordem de Tenebras” possui tenacidade o suficiente para se infiltrar nos lugares mais inusitados possíveis. Será que o casarão teve um propósito benéfico em sua criação e agora está sendo utilizado pelo Outro Lado? E a Assassina de Mármore? Quais são os seus objetivos? Ela age de bom grado ou esta sendo forçada, manipulada? Quanto mais perguntas respondemos, mais questões surgem, e a verdade se esconde nas brumas da inconsciência.
“Pater noster, qui es in caelis:
Sanctificétur nomen tuum;
Advéniat regnum tuum;
Fiat volúntas tua, sicut in caelo, et in terra.
Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie;
Et dimítte nobis débita nostra,
Sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris;
Et ne nos indúcas in tentatiónem;
Sed líbera nos a malo.
Amen.”
“Esteja a minha frente a cada momento, ó Senhor, pois contigo nada temerei. Pela Sua grandeza lutarei, e ante meus inimigos clamarei e exultarei o Seu nome. Por que tu és o Rei dos reis e Senhor dos senhores, e a Tua Justiça é iminente. Louvado seja seu nome, ó Deus de Davi.”

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