quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Conto: Nahdjie – Paixão em Mármore. (Versão Beta)

Nahdjie – Paixão em Mármore.

O escaldante sol reluz sobre a fina areia, que brilha com a intensidade de diminutos grãos de ouro, que produz a sensação dourada sob a óptica da caravana de beduínos que guiados pelo vento, caminham em direção ao suposto infernal nada dourado.
Varrendo as dunas a brisa sufocante, esculpia ondas e reentrâncias por onde passava, apagando as pesadas pegadas dos camelos, que pareciam guiar os beduínos perdidos na imensidão seca. Após muito tempo de marcha finalmente a tropa vislumbra o local apropriado e esperado pela caravana. As ruínas de Jafar.
Poucos eram os viajantes que conheciam aquele local, esquecido pelo tempo e pela história.
- Marek, isto deve ser uma miragem. Alah não esta contente conosco. Voltemos enquanto os camelos conseguem caminhar. Eu lhe suplico Marek.
- Ialah, Kazin. Deixe de tolice. Faremos o que tem que ser feito. Não envolva Alah nos assuntos dos homens, por somos imperfeitos. Ele nos julgará quando for o momento. Até lá, já basta de sangue.
E novamente a única coisa que se ouvia eram os camelos e os ventos até que o verde enfrenta o insistente amarelo, com timidez, mas com resistência e determinação. Agora a areia divide seu império com algumas rochas no terreno semi-árido que aos poucos sede lugar a pequenas gramíneas até chegarem perto de um tanque natural onde outrora pudesse ter existido um pequeno lago. Mais a frente o que restava de algumas ruínas que o tempo e o vento insistiam em fazer desaparecer e não deixar vestígios de onde Jafar via pela sua janela prosperidade, e um povo feliz e que sucumbiu ante a ganância de seus habitantes.
- Então é aqui? – questiona preocupado Kazin como se o local expulsa-se lhe logo ao chegar. Kasin sentia um frio cruel que lhe tomava a espinha, mesmo sob o intenso calor.
- Sim meu irmão, esta era Jafar e se os antigos estiverem certos, e suas histórias forem verdadeiras, Jafar era imensa, mas hoje quase ninguém conhece sua historia e o que é mais importante, ninguém conhece seu verdadeiro tesouro. Vamos posar aqui. Reúna os camelos próximos a água e ordene aos homens que montem suas tendas. Quero montar minha tenda mais a frente onde devia ser o palácio. Seguirei o caminho da água. – disse Marek sem descer de seu camelo, e olhando tudo ao seu redor.
Sob a pouca vegetação, um fio quase cristalino corria em direção da pequena lagoa, o que era o suficiente para levá-lo até onde os restos de uma fonte de onde brotava estreitamente a água. Que gotejava por entre as fissuras da estrutura da fonte.
Marek desce de seu camelo, prendendo-o em uma estrutura de pedra que parecia ter sido o batente de entrada de um local grandioso, como um palácio ou um templo. Ele fecha os olhos enquanto o quente vento lhe envolve, abraçando-o e fazendo com que ele viajasse no tempo e visse o esplendor de Jafar, com seu mercado colorido, pelos tecidos, prata, ouro, especiarias e alimentos diversos. E como se conduzido por um redemoinho, deixou o sonho e retornou a realidade bege, ocre e diversos tons que a areia e o sol pudessem lhe tingir.
O acampamento fora montado com rapidez para que finalmente descansassem da longa viagem, e agora, a paisagem ganhava o colorido das tendas dos beduínos abrigando-os da gélida noite que se aproximava sob um céu estrelado e sob uma gigantesca lua avermelhada que surgia ao passo que o sol exausto de seu trabalho, lentamente desaparecia ao longe, onde as dunas o esconderiam até a manhã seguinte.
- Veja meu irmão! Você estava tão preocupado e Alah mandou pintar a noite para nos receber.
- Marek, você brinca, mas a lua sangra hoje. Devemos nos recolher e irmos embora deste lugar o mais rápido possível.
- Já basta. Mande trazer o Israelita a minha tenda. Traga com ele a velha feiticeira. Quero conversar com ambos antes de procurar o tesouro.
- Acho que não deveríamos ter trazido o Israelita junto. Não confio neles. E sinceramente não acredito que Alah permita que essa feiticeira seja o que ela diz ser. Não passa de uma enganadora. Tome cuidado com suas artimanhas.
- Você vai envelhecer antes da hora por ter mais preocupação do que deveria.
- Sei bem. Se você não fosse o mais velho. – retrucou contrariado Kazin que se dirigiu ao acampamento resmungando.
Tanta preocupação não era a toa, pois muitas vezes o ímpeto do irmão mais velho lhes renderam severos castigos. Mas o que Kazin não sabia era a verdadeira razão de estarem ali. Um planejamento de anos, aguardando a oportunidade correta, pois nunca iriam voltar com as mãos abanando. Mesmo assim algumas moedas, pedrarias não valeriam tanto esforço e sacrifício. Se a cidade fora destruída pela cobiça, não haveria mais tesouro algum. No entanto Marek sabia a verdade sobre Jafar.
Sem querer quebrou um vaso de um comerciante, e rapidamente o ressarciu pelo prejuízo, ficando com os restos, deste vaso que tinha um formato diferente, lembrando mais um jarro. Pelo seu tamanho era mais pesado do que deveria ser. E Marek olhou para o fundo do vaso que agora estava trincado, e lá viu entre a fissura coloração diferente do vaso. Afastando-se da rua, levou consigo o vaso, e terminou espatifando-o num beco vazio, onde do fundo precipitou-se uma pequena caixa de madeira que resistiu ao tempo. Não havia mais tranca, pois ou o barro ou algum inseto e ainda a umidade pudesse ter destruído-a bem como fez com a capa, que envolvia a caixa. Abrindo-a vagarosamente sua curiosidade fez bater seu coração de forma descompassada, frenética como se todos os problemas estivessem sendo resolvidos naquele momento em que à tampa se levantava, dando visão ao seu conteúdo quase sagrado, pois oculto como estava de certo precioso seria. Dentro da caixa, uma flor seca, em cima de uma areia fina e amarela. Mas ao retirar a flor seu dedo espetou em um espinho seco e embebedou o caule com seu sangue. Marek sentiu uma grande dor deixando a flor cair e inclinado a caixa, fazendo escorrer a areia de dentro dela, revelando enfim o conteúdo pesado. Vagarosamente retirou o embrulho da caixa que ao receber as primeiras gotas de sangue como se fosse feita de papel, se desfez em fino pó.
Ele não sabia o que fazer, mas envolveu seu dedo com um pano que portava, e logo desembrulhou o conteúdo da caixa. Envolto no que parecia ser couro de carneiro tingido, ainda podia ver-se a inscrição de um árabe muito antigo, que não se falava e não se escrevia a muito e muito tempo, advertindo ao seu leitor: “leia somente durante a Luz do dia, ou sucumbirá a tentação”.
Abrindo a cortina da tenda repentinamente Kazin adentrou anunciando os convidados para seu irmão. Como de costume, deixou seu calçado sobre um tapete e se aproximou de seu irmão se aconchegando entre algumas almofadas e servindo-se de chá.
- Onde estão seus modos Kazin? Desculpem-me pelas acomodações, mas sejam bem vindos em minha casa, acomodem-se e sirvam-se de um chá. Talvez o cordeiro já esteja pronto, meus servos trarão a qualquer momento.
Sem saber o que exatamente o que fazer o Isrelita, retirou seu calçado, e se dirigiu até os dois irmãos e proferiu: “louvado seja o vosso lar, onde o senhor todo poderoso trará prosperidade”, sentando-se logo em seguida. A mulher que não era tão velha quanto sua aparência demonstrava, não retirou os sapatos e desconfiada sentou de frente para todos de forma que pudesse ver a saída e os homens.
- Uma mulher não deve ficar sozinha com um homem. Principalmente quando em maior numero. É haran! – exclamou Kazin desconfortável com a presença dos convidados.
- Do que você tem medo jovem? Que ela te enfeitice e lhe seduza? Torne você um escravo de seu desejo? - brincou o irmão, desfazendo o clima tenso – Se lhe preocupa a condição desta mulher, comprei uma serva, que será sua companhia e servi a ela até o fim de nossa jornada. Ela deve estar se limpando conforme lhe instrui. Hoje teremos música, dança, comida e conversaremos muito, assim descansaremos nossos corpos e nossas almas.
Não demorou muito, seus servos, adentraram a grande tenda, e trouxeram comida, bebida, frutas secas, musica, alegria, e uma bela jovem dançando. A batida da musica quase pode produzir um transe entre a fumaça do nahguile e os véus da odalisca.
A fumaça se dissipava a medida que o vento soprava e os becos estreitos jogavam a fumaça dos braseiros das casa para cima, fazendo com que os cheiros se misturassem aos diversos aromas do mercado.
Abrindo o selo de cera que fechava o invólucro, um escuro livro feito de couro,cobre e madeira, revelavas-se aos poucos, mostrando seu acabamento finamente ornado e intacto, trazia um lacre propositalmente colocado. Observando frente e verso do livro não viu nenhuma chave, e não fazia a menor idéia de como ira abri-la. A solução seria cortar a tira de couro, mas não o queria fazê-lo. Assim Marek sem ferramentas e não querendo responder a perguntas, levaria o livro para um local onde pudesse abri-lo. Quando ia saindo ia pisar sobre a flor que espetara seu dedo e percebeu que as pétalas estavam rubras e o caule verde como se colhida neste momento. –“Uma Rosa do deserto!” - exclamou assustado sem entender, ainda procurando pela flor seca em que se espetara. A rosa exalava um delicioso aroma doce, e vagarosa e delicadamente a apanhou-a do chão, levando consigo deixando para trás os cacos do vaso quebrado, onde havia alguns grãos no chão próximos de onde a rosa teria caído e um passarinho pousou para se alimentar, e ali mesmo definhar aos poucos dando seu ultimo piado, sobrando apenas um punhado de fina areia esbranquiçada que logo se misturou com a areia da caixa e com o vento que zigue-zagueia as ruas e becos.
Escondido do irmão na laje de uma das casas, Marek encantou-se com a rosa, mas não se esqueceu do livro. Agora, sentado pode ver melhor a tranca que aparentemente não precisa de chaves. Eram discos sobrepostos em labirintos, onde uma pequena esfera corria. Posicionar corretamente a esfera entre os discos fazendo com que girassem era a forma de destrancar.
E girando sobre os tapetes dançava a odalisca entretendo os convidados a noite. Exausta. Sentou-se entre as almofadas ficando próxima a outra mulher, esperando por uma ordem e quase implorando para não mais dançar.
Marek pediu para que todos os servos saíssem e descansassem ficando os cinco dentro da grande tenda.
- O motivo de estarmos hoje aqui meus amigos, - iniciou Marek – é que vamos descobrir um grande tesouro nestas ruínas. Um tesouro de valor inestimável, que vai mudar as nossas vidas.
Senhor Marek, - interpelou o Israelita, assim sendo, devemos descansar, pois amanha será um grande dia e longo, pois se acharmos realmente este tesouro tudo tem que estar preparado. Seus servos estarão prontos a colaborar?
Antes mesmo de Marek responder, a feiticeira se prontificou a inquirir Marek: - Não se esqueça de nosso acordo Marek. Não quero nenhuma moeda sua depois disso.
- Sei muito bem de minhas obrigações, feiticeira. Encarregue-se de fazer sua parte para que nada dê errado. Agora vocês devem descansar também. Leve-os em segurança meu irmão, e descanse para acordar disposto amanha.
Noite fria no deserto silencioso, onde o vento dormiu também e recomeçou seu trabalho nas primeiras laminas da aurora. Vento este que balançou a tenda de Marek suavemente como se embalasse o berço de um bebe para que ele descanse e repouse nos braços de Morpheus onde Chronus determina seu tempo com areia. A mesma areia que começa a emitir pequenos estalidos, como se tivesse vida e despertasse na alvorada e grão a grão seria um beduíno migrando de um lugar para outro.
Girando hora para esquerda, hora para direita disco a disco, a esfera movia dentro da pista de labirintos de cobre e como se sempre soubesse a combinação, guiou a esfera até o centro, descrevendo nos discos um desenho olhando-as de cima como as pétalas de uma rosa de ouro se abrindo e quando a esfera chegando ao centro ouviu-se um clicar suave seguido de um rangido metálico, onde a tira de couro afrouxou-se. Estava aberto.
O barulho dos beduínos removendo entulhos parecia-se com uma grande obra. Seguindo as ordens de Kazin, eles estavam limpando o que parecia a entrada de um secreto caminho que levava ao palácio.
- Como você sabia que era aqui? – inquiriu Kazin ao ver surgir lentamente o escuro vão e os primeiros degraus.
Sem alterar sua expressão calmamente Marek coçou a grossa barba sobre suas bochechas e disse: -“Eu sonhei com isso”.
Quando a passagem estava livre, Marek ordenou que lhe trouxessem as lanternas e as tochas. O querosene das lanternas especialmente preparado com óleo de almíscar adoçava o ar funesto, pesado que estava na mofada escuridão do extenso corredor que descia interminavelmente até chegarem a uma pequena câmara que nada tinha. – “Feiticeira, faça seu trabalho” – ordenando Marek que olhava cada espaço das paredes que pareciam ter sido recortadas a mão.
A mulher se aproxima da parede oposta à entrada trazendo consigo um pequeno carneiro, onde amarrado em seu pescoço havia doze guizos circundando-o. Posto ao chão de frente a parede, inicialmente tentou correr e fugir. Os beduínos fechavam a passagem que levava a escada e o carneirinho rodou por toda a câmara até parar em frente a uma das paredes onde baliu incessantemente até sua exaustão, quando chacoalhou sua cabeça, fazendo tilintar o colar de guizos, cabeceou por três vezes o mesmo local na parede até lentamente curvando-se ante a marca feita por seu sangue que escorria vagarosamente até tocar o chão. Prostrado baliu pela ultima vez enquanto uma lagrima escorria de seus olhos e sua cabeça toca enfim o solo. A feiticeira posicionou-se atrás do morto cordeiro e proferiu algumas palavras em aramaico arcaico, olhando para a marca e sangue, com as mãos espalmadas para frente, quando o sangue que empoçado a frente da parede subitamente fora sugado por debaixo dela.
- Cavem ali e sejam rápidos - ordenou a feiticeira, mas ninguém se movera de medo, até Marek ordená-los a cumprir imediatamente ou sofreriam com sua ira.
Um grande buraco revelou uma nova escada que conduzia a uma porta imensa, de pedra e metal, bloqueada pelo lado de fora por grossas barras de madeira enlaçadas por uma fina lamina de metal prateado. Por entre as argolas que servem de puxador estava amarrado por varias tiras de couro que se entrelaçavam e portavam entre eles uma flor murcha.
- Igual a descrição do livro – sussurra Marek sem acreditar em que seus olhos viam. Ele retirou de dentro de sua túnica uma rosa, com o aspecto de que acabara de ser colhida, comparando-a a flor da porta. Ele ordenou que fossem retiradas as três imensas toras que bloqueavam a porta que se dividia em duas partes como um portal.
Então a feiticeira se aproxima carregando o carneiro em seus braços erguendo-o em frente ao portal e novamente proferindo frases em aramaico arcaico aspergia o sangue do carneiro por sobre a murcha flor e sobre a porta quando de repente como se abalroada por trás, a porta emitiu com grande estardalhaço que ecoou um barulho quase ensurdecedor fazendo levantar poeira acumulada em seus batentes e logo em seguida ser sugada para dentro como se uma corrente de ar as emburrasse pelas frestas revelando a linha por entre o centro das portas e revelando a rosa bordo graciosa desabrochando lentamente entre as tiras de couro.
Os beduínos ficaram apavorados e alguns correram em direção a saída, gritando por Alah, como se suas almas estivessem sendo devoradas. Mas não Marek que gélido caminhou até o portal, desatou as amarras e pegou a segunda rosa com cautela e carinho.
Kazin aproxima-se de seu irmão e suplica para que ele desista, e retornem enquanto é tempo. Os homens estão amedrontados e não deveriam seguir o gênio mal que possuía o corpo da feiticeira, pois Alah os puniria eternamente sobre o quente mármore do inferno.
Marek repreendeu seu irmão, e ordenou que se calasse. Se estivesse com medo poderia esperar do lado de fora com os demais covardes que correram. E ainda advertiu-o olhando dentro de seus olhos como se procurasse por sua alma: - “Ouça bem Kazin, se sair não queira fornicar com a serva odalisca, pois ela é virgem e assim deve permanecer, pois estas são minhas ordens”.
Pressentindo a ira do irmão, Kazin recolheu-se a sua insignificância, e pôs-se calado dando um passo para trás onde apenas observara a dedicação do irmão mais velho ordenando a dois beduínos que abrissem as pesadas portas. Um mórbido cheiro exalou de dentro e como a seu comando ao estender as rosas por entre as as folhas das portas ultrapassando os batentes rumo a escuridão, a podridão sumiu dando lugar ao cheiro das flores que logo em seguida adentraram o local. Enfim o Israelita pediu para que os beduínos espalhassem se levando consigo as tochas e lanternas que revelariam aos poucos o imenso salão com pilares esculpidos com gárgulas segurando o teto em arcos onde ao seu centro havia gigantescas estátuas de deuses egípcios de onde se podiam ver os grandes olhos feitos de cristais e brilhantes.
- Olhe senhor Marek, ouro! – feliz exautou o beduíno.
- Sim, carreguem tudo para fora mas não toquem em mais nada dentro desta sala eu lhes ordeno ou sucumbirão sobre a lamina de minha espada.
- Não se preocupe, eu tomarei conta de que tudo saia como ordenou. – se prontificou Kazin.
- Por isso eu trouxe você meu irmão. Para que nada dê errado.
E a sala foi esvaziada com a rapidez de uma tempestade, onde agora restavam apenas Marek, Kazin, o Israelita, a Feiticeira que agora esta acompanhada da jovem odalisca. O Israelita se prontificou a garantir que permanecessem a sós.
Ao centro do salão onde as estatuas estavam circundadas, haviam dois grandes blocos de mármore e uma grande mesa que serviria de altar onde o israelita se posicionou e preparou-se para um grande ritual. Da mesma forma a feiticeira ia se preparando e preparando a odalisca que também participaria dos ritos.
Os olhos das estátuas se tornaram grandes lanternas iluminando o cento do salão onde os cinco estavam. O Israelita aproximou-se de Marek e o advertiu que faltava um membro, mesmo assim ele ordenou que continuassem pois lá fora já estava escurecendo e o momento tão esperado estava chegando.
- Longos foram os anos de espera, para esta noite. Que comece a celebração. Logo minha querida estaremos juntos pela eternidade. – olhou Marek para o imenso bloco de mármore agora amarrado com longas tiras de couro de carneiro.
O Israelita pegou o livro das mãos de Marek e colocou sobre o altar atrás do Menorah onde as sete velas possuíam cores diferentes, por sobre um tecido aveludado vermelho, onde havia uma taça contendo água e um pequeno castiçal portando incenso e começou a proferir uma oração na língua dos antigos escravos do Egito, ao mesmo tempo que a feiticeira dava para a odalisca beber em uma cuia especialmente preparada, uma poção de sabor amargo mas que rapidamente produziu um efeito alucinógeno e começou a dançar por sobre a pedra, enquanto a feiticeira cantava um canção pagã, e derramava o sangue do carneiro morto. Por sobre a odalisca fazendo cair sobre o mármore branco, tingindo-o. Enquanto a odalisca dançava ensangüentada a feiticeira posicionou o carneiro de forma a ficar com sua cabeça voltada para o altar, e logo em seguida bebeu o restante da poção deitando por sobre a outra pedra, onde estavam as tiras de couro.
Marek perfurou-se novamente, agora em cada uma de suas mãos, a rosa fora banhada com seu sangue, e as depositou uma sobre cada bloco de pedra se posicionando por sobre o cordeiro. Kazin ficou mais atrás de onde podia ver tudo estando alinhado com seu irmão e o Israelita.
A feiticeira livrou-se seus trapos e ficando nua de pé por sobre o mármore, deixou de cantar e agora somente pronunciava freneticamente uma frase, simultaneamente a odalisca dançava ao som das pequenas moedas de suas vestes que caiam véu por véu, até lhe restar apenas um colar com doze guizos, quando Marek bradou:- “Desperte Nahdjie amada, de seu frio sono branco.”! – erguendo suas mãos ensangüentadas. E olhando para o teto contemplando agora o formado do sol sobre sua cabeça e logo em seguida olhando para o altar em forma de lua crescente reconhecendo o símbolo de Azharrel caindo de joelhos por cima do cadáver do cordeiro.
Quando seus joelhos tocam o chão as mulheres se esticam a ponto de ficar apenas apoiadas sobre a ponta de seus pés, como se fossem puxadas pelo pescoço, mantendo suas cabeças arqueadas para trás, quando um vapor verde e prata abandonara suas bocas e elas caíram sobre o mármore que explodiria como um receptáculo de vidro logo em seguida, espalhando-se como a areia do deserto, porem branca tomando quase toda a sala e rapidamente se assentando, revelando novamente o centro do salão.
Marek sorria agora satisfeito, prostrado com suas mãos abertas para cima sobre o chão olhando para os lados onde haviam os imensos blocos de mármore. De um lado, os contornos de uma mulher esbranquiçada, nua como se modelada e esculpida cuidadosamente a mão, sobre seu ventre uma rosa e de seu lado oposto outra mulher com as mesmas características, porem envolta em tiras de couro, onde entre seus fartos seios, abrigava uma rosa.
Sem saber qual delas era Nadjie, interpelou o Israelita, que como em um transe continuava a falar em uma linguagem desconhecida para todos os demais. E sem obter resposta, começou a se mover lentamente, quase rastejante, até se levantar, deixando cair uma grande quantidade de mármore em pó de suas vestes. Olhou por sobre seus ombros procurando onde estaria seu irmão tentando localizar-se.
Dirigiu-se a figura feminina que estava sem as tiras de couro e a observou durante algum tempo.
- Pobre odalisca. Tornou-se uma estátua. Já era muda, pois seu antigo senhor cortara-lhe a língua. De certo não percebera isto não Kazin. Olhava para esta escrava como a abelha para o mel, e você não notou nada e mesmo assim a cobiçava.
Voltando-se para o outro lado onde a outra figura feminina estava, ajoelhou-se ante a quase perfeição da alva pedra. Com suas mãos gotejantes desamarrou laço a laço a estatua, cortejando-a devocionalmente, percorrendo toda a extensão do corpo demarcando-a como propriedade, gotejando o sangue e a saliva que escoria de seus lábios.
- Despertai amada, quem te ordena é teu senhor! – sussurrou próxima a estátua, desatando o embrulho que portava a rosa, jogando-o na direção do irmão Kazin. – O sacrifício da feiticeira foi valido achando que conseguiria trocar de corpo com a odalisca. Que tola era fora minha amada, pois ela deu sua vida por você minha amada, e agora juntos governaremos a eternidade.
O mórbido silêncio tomou conta do salão novamente, onde o respirar de Marek era a única coisa que se ouvia, quando as suas costas ouvira uma gargalhada. Pobre Marek, apaixonado por uma estátua, achando que governaria ao lado de Nadjie. Homem tolo e prepotente. – finalizou a voz feminina. - Achou mesmo que eu seria tola o suficiente de me sacrificar por uma estátua.
Incrédulo Marek girou seu corpo para ver e enfim entender. A odalisca estava de pé e falando. Pelo menos era o que acreditava.
- Então o “Senhor do Desero” foi enganado. – dizia Kazin se dirigindo a odalisca com as tiras de couro e a rosa na mão. – julga-se tão esperto não é Marek. E caiu na sua mentira.
Sem entender o que estava acontecendo viu o irmão limpar os lábios da nua odalisca, e beijar-lhe docemente, abraçando-a e recobrindo seu corpo com uma túnica. Sem reconhecer a feiticeira no corpo da odalisca, Marek parecia incrédulo, no que estava acontecendo. – “Mas se realmente a feiticeira conseguiu trocar de corpo”...indagava-se. Como se despertando de um sonho girou rapidamente para olhar o vazio abandonado no centro da sala, onde aos poucos a luminosidade diminuía.
As tochas e lanternas iam se apagando, e uma nevoa densa surgira por sob seus pés.
- Eu lhe avisei que faltava um membro neste ritual, Marek, mesmo assim você não escutou nem seu irmão nem a mim. - bradou o Israelita, em meio a fumaça do incenso que se misturava a névoa.
- Quantos erros meu irmão. Estou farto de consertá-los. Veja o que sua cobiça e ganância fizeram com você. Nem mesmo a seu irmão quis compartilhar seus segredos. Não confiou em mim, me tratando como um servo estúpido. Mas eu descobri tudo Marek. Ou você realmente acha que encontrou um Israelita, que conseguia ler o livro e fosse totalmente fiel a você? Você senhor do nada, achou mesmo que encontrou uma feiticeira capas de sacrificar-se pelos seus devaneios, e onde é que você meu irmão encontraria uma serva muda,disposta a servir a um sacrifício? Eu descobri Marek o livro, em meio as suas coisas. E assim como você, desvendei como abrir a tranca, porem eu li o livro, ou pelo menos tentei fazê-lo sob a luz do sol. Até descobrir o significado oculto desta frase. Procurei por alguém que fosse totalmente comprável. E adivinha só. Alem de tudo, um grande conhecedor da historia. Formidável não é mesmo. Mas você estava certo em ao menos uma coisa. Eu adoraria fornicar com a serva, mas eu me apaixonei primeiro pela feiticeira que trocou de corpo com a serva antes de você compre-la. Sua língua não fora cortada a toa. Mas ela entendeu bem o plano, e claro que assim como você, ela foi tola em acreditar que seria livre e rica depois de tudo.
A ira de Marek crescia dentro dele, como a massa de fermento, e seus olhos lacrimejavam de ódio.
- Eu controlo Nahdjie. Eu a despertei. Eu dei meu sangue, e só eu a amei com toda minha alma. Matarei um a um e levarei minha amada deste local. - brandindo sua cimitarra sobre o piso degolando o cadáver do carneiro.
- Não Marek, você não controla Nahdjie. Você foi somente o meio pelo qual ela retornou. Você foi induzido a chegar até aqui. Eu levei muito tempo seguindo as pistas procurando Jafar, não por causa de Nahdjie, mas por causa do tesouro. – calmamente falou o Israelita.
- Então eu lhe pagarei o que quiser, fique com todo o ouro e prata que os homens carregaram. Fica com a caravana. Mas me dê Nadjie. – quase suplicando por sua amada Marek tenta contra argumentar. – Eu posso lhe arranjar mais, eu tenho algumas economias escondidas de meu irmão.
- Acho que você ainda não compreendeu Marek. Eu não vim atrás de dinheiro. Vim por um tesouro maior que Nahdjie, ou pedrarias, eu vim atrás do punhal de Jafar. – erguendo o ocultado item por detrás do altar, onde escondido e enterrado na borda do altar como um mero enfeite. – Por muitas décadas minha família procura por este punhal. E só um tolo como você acreditou na minha história, de cidade prospera, e comendo a comida preparada pela feiticeira, realmente você é muito mais tolo do que eu pensava. Este local era um templo, que mais tarde foi dedicado a Azharrel, o anjo da morte. Se preferir pode chamá-lo de Uriel, ou Azrael, enfim não importa a variação. Conta a lenda que um homem lutou em nome deste anjo, e dele recebeu um punhal, que teria o poder de destruir o mal, e nunca poderia ser utilizado para outra tarefa senão essa. Em uma destas batalhas, a mais importante delas Jafar iria enfrentar Baal, e mandá-lo de volta a seu plano de origem conforme instrução do anjo. E sem desobedece-lo lutou bravamente contra Baal e enterrou seu punhal no peito da criatura fazendo-a sumir deste mundo. Mas assim como você o poder corrompeu Jafar. Ele construiria uma grande fortaleza, e nela morou com mais de trinta mulheres. E ainda não satisfeito, cobiçou a mais linda de todas as jovens do vilarejo pobre em torno da grande fortaleza. Nahdjie. O anjo o alertou dos perigos, mas mesmo assim, nada adiantou. A jovem gostava de um pobre pastor de nome Davi. Enfurecido pela recusa da jovem, mandou que a trouxessem a força, sem que ninguém soubesse. Nunca mais Davi a bela jovem e foi pastar com as cabras de seu pai em outro local. Numa grande caravana, também ele abandou a fortaleza em direção ao deserto onde permaneceu por muito tempo até reconstruir sua fortaleza, agora muito maior e sob o grande palácio que dentro dela existia, construiria este templo. Jovem cansada de tentar fugir preferiu a morte, e se escondendo de Jafar apanhou o punhal e amaldiçoando-o transpassou seu coração. Apesar da dor a jovem segurava firmemente três rosas do deserto que colhera um pouco antes. Seu corpo começava a enrijecer mas ela não morria. Jafar adentrou a sala, mas não poderia fazer mais nada. Mandou buscar um cordeiro que imolaria em nome do anjo, para que ele a salvasse. E sobre o altar colou o cordeiro e a jovem deitada sobre uma grande pedra de mármore agonizava sua não morte. Jafar desesperado retirou do peito da jovem o punha que respingou sobre as rosas, e o utilizou para imolar o cordeiro. Uma grande rajada de vento tomou a sala, e o anjo apareceu diante deles e tocando a jovem disse lhe que ainda não era hora de morrer, mas por tentar retirar sua própria vida pagaria um preço pior que a morte. Como objeto de desejo ela ficaria trancada dentro desta pedra de mármore e seria parte dela e a cada trinta invernos despertaria, e se alimentaria da seiva que ela arrancara de dentro de si mesma. Jafar de joelhos implorou ao anjo que não a punisse por ele ter errado. O anjo aproximou-se de Jafar e praguejou. – “Amaldiçoado seja você Jafar, pois viverá tempo suficiente par ver todas as suas mulheres morrem, enterrará seus descendentes, e guardará Nadjie do mundo, pois ela se alimentará de cada um deles e para que ela não saiba quem é seu mestre retirarei dela a Lus de seus olhos, e a calarei, pra que a doçura de sua vos jamais seja ouvida novamente por outro homem”. – tendo dito isso, o anjo entregou-lhes um livro com as instruções de como deveria fazer para despertar Nahdjie, para prestar-lhe serviços pois seria usada na guerra contra os adoradores e o mal que ainda caminhava livre sobre a terra. E sumiu para sempre. Jafar derramou lágrimas sobre o corpo de Nadjie, declarando todo o seu amor e percebera que não haviam mais os globos oculares e dentro de sua boca, através dos carnudos lábios que mais pareciam gomos de uma doce polcã, não havia mais língua, e como se transformasse o grande bloco de mármore em uma barra de manteiga, Nahdjie afundava vagarosamente, desaparecendo por completo restando apenas as rosas por sobre a pedra. E assim punido pelo anjo, Jafar viveu recluso, e durante três décadas pode ver mais uma vez sua amada. Cansado, e não aceitando no que ela se torna, ordenou a seu servo mais fiel. Que levassem os últimos membros de sua família para bem longe dali, e seu nome e aquele local deveria ser lacrado, destruído e esquecido. O templo seria sua tumba. E assim foi feito. Ele escondeu o punhal e ali ao lado de sua amada terminou os seus dias. E minha família vagou pelo deserto, ate hoje.
- Sua longa história não vai salvar você da lâmina de minha espada. – proferiu Marek se dirigindo furiosamente de encontro ao Israelita, onde fora subitamente parado por uma força descomunal.
Ele dera de cara com Nahdije, e como se a ouvisse pedir, beijou intensa e apaixonadamente. E tão logo o prazer deu lugar a dor e aos gritos sufocados pelo sangue que escorria de seus lábios e tornava a alva criatura rubra.
Marek teve sua língua arrancada, e seu sangue jorrava como uma cascata.
- O QUE O PORTADOR DO PUNHAL DESEJA? – pronunciou Nadjie de posse da nova língua.
- Por muitos anos você não foi despertada. Assim sendo deve se alimentar conforme lhe foi ordenado. E retornar para seu descanço eu te ordeno. – disse o Israelita, de sua boca viam-se os grandes caninos que aos poucos tomavam a glote de Marek que caíra morto e seco.
- Pouparei apenas os animais e quem portar as minhas rosas.
E assim ela se alimentou de um por um.
- Os anos se passaram, décadas se passaram, séculos se passaram, e esta história policial é contada de geração em geração.
- Foi muito bom ouvir esta historia senhor Muhammed, mas não acredito que isto esteja relacionado aos crimes que venho investigando. Mesmo assim só vim conferir, pois o nome do seu pai esta na escritura dada casa onde encontramos vestígios de crimes com características de magia negra ou coisa deste gênero.
- Não, não. A casa pertence a minha família a muito tempo mas esta em meu nome.
- Acredito que haja algum engano, pois o senhor deveria ter cento e cinqüenta anos para isso.
- O seu colega Inspetor Villas também não acreditou.
- Já chega de suas historias vovô. O policial tem mais o que fazer.
O policial levantou-se e agradeceu a hospitalidade, os doces árabes e o chá e se encaminhou para aporta. Intrigado questionou o neto.
- Sem querer abusar senhor Tarik, o senhor recebeu a visita de alguém da policia?
- Não. Somente o senhor. Meu avô é muito velho e acho não tem muita lucidez. Não se impressione com suas histórias das mil e uma noites.
Mais uma vez o policial agradeceu, e deixou seu cartão, numa eventual lembrança de algum fato que pudesse ajudá-lo na investigação retirando-se e entrando na viatura da seção de homicídios do Estado de São Paulo.
Tarik após a saída do policial, entrou na residência e trancou-se em seu quarto deixando o avô resmungando. Lá dentro de posso de um celular, acionou a discagem rápida e de pronto do outro lado da linha fora atendido.
- O casarão foi interditado, a policia acabou de sair daqui. Estão fazendo perguntas. Um tal “Esquadrão Zumbi” está investigando. Que vamos fazer.
Do outro lado da linha uma voz rouca calmamente respondeu:
- Absolutamente nada. Enquanto o punhal estiver comigo, a situação estará sob controle. Deixe a policia comigo. Agora devo voltar a meu descanso pois ainda é cedo para acordar.
Os telefones são desligados. E o ritmo frenético da cidade paulistana continua.
O policial para na banca de jornal e compra um daqueles jornais que publicam noticias de crimes, e logo na primeira pagina lia-se: - “SERIAL KILLER MATA SUA QUINTA VITIMA”.

FIM

Nahdjie – Paixão em Mármore.
Por: Vinicius Azharrel Paixão Tomaz

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